PRÊMIO ENERGISA ARTES VISUAIS

Energisa

Marlene Almeida - Tempo para o destino


O Prêmio Energisa de Artes Visuais prossegue a sua agenda de exposições de artistas convidados com a mostra Tempo para o destino da artista plástica paraibana Marlene Almeida. Inaugurado em setembro de 2011, com a mostra Divortium Aquarum, do paraibano José Rufino, o Prêmio realizou, desde então, duas mostras coletivas e uma individual com artistas brasileiros, contemplando a produção dos artistas Laércio Redondo (PR), Braz Marinho (PB), Amanda Mei (SP), Chico Dantas (PB), AoLeo (RJ), Júlio Leite (PB) e mais recentemente o mineiro Márcio Sampaio.

Aos 70 anos de idade, Marlene Almeida dá continuidade à pesquisa com pigmentos naturais que começou no final dos anos 1970, quando realizou a sua primeira exposição individual (em 1979) na Fundação Cultural da Paraíba. Desde a década de 90 o trabalho da artista tem como foco o tempo, ou mais especificamente, a passagem do tempo. “A impermanência ou a fragilidade é uma das maiores angústias do ser humano. Tendo desenvolvido a capacidade de pensar, o homem racional é condenado a entender-se passageiro. Impossível mudar a realidade. Difícil caminhar sobre o aguçado fio da navalha”, reitera Marlene.

Em 1990, a artista montou a exposição Passatempo, com objetos efêmeros, que lembravam ampulhetas modificadas. A exposição foi apresentada no Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa, e depois na Galeria Valú Ória, em São Paulo e no ICBRA, em Berlim, na Alemanha. As exposições seguintes também falavam do tempo: Tempo (no NAC, UFPB), Zeit vergeht, Der Natur der Zeit (Galerie Drei, em Dresden, na Alemanha), Grenze (Galerie Forum, Berlim), Limite (NAC, UFRN) Zeit/Grenze (Galerie Weisser Elephant, em Berlim), Resistentes (NAC, UFPB) e Passageiros (Galeria Sierra, João Pessoa).

A exposição Tempo para o destino toma dos monitores dos voos internacionais, o aviso do tempo que falta para chegar ao próximo aeroporto: time to destination. Fora do contexto e sem a informação do tempo restante, a expressão passa a indicar um destino desconhecido, incerto, sem data ou horário previsto. “Que destino? O seu? O meu? O de todos? O do planeta? E, se não sabemos qual é o destino, como contar os dias, marcar os minutos, os segundos?”, questiona a artista.

Um conjunto de objetos, tubos em tecido laminado, prata, cobre, cinza, preenchidos com areia como ampulhetas onde o tempo não pode passar, parece expressar o desejo de todos. Outro conjunto de objetos suspensos e iluminados lembra o modo mais ancestral de medir o tempo: as varas de sombra.

A exposição também apresenta pinturas, em têmpera sobre tela. Ainda tendo como foco a precariedade, ou a ação implacável do tempo, no fundo claro (terra branca) surgem restos vegetais retorcidos, fragmentos da natureza, a grande paixão da artista, em cores escuras e tons terrosos; sendo duas pinturas grandes, medindo 200x260cm cada; 3 trípticos, de 140x210cm; um díptico, e um conjunto de telas de pequenos formatos, de dimensões variadas.

Ao longo de mais de três décadas dedicadas ao aprofundamento da sua pesquisa, Marlene Almeida construiu uma obra em que o resultado estético é fruto das suas inclinações político-ideológicas, resultando numa confluência de força e sensibilidade raramente vistas nas artes visuais. Sua obra é uma extensão do seu pensamento sobre a condição e a fragilidade humanas. “Como caminhar ao contrário, pisando nas mesmas marcas se o retorno é impraticável, e os rastros se apagaram? Como enganar o tempo, este inimigo invisível, e sair como louca, ocultando-me do mesmo, e virando tudo ao avesso, como um rio que estanca ante o desaguadouro natural, rejeita o mar e lança-se, não mais como um filete manso, mas como uma torrente caudalosa e voraz, em busca da sua nascente? Afinal não é esse nosso desejo mais intenso? Revolver a vida ou pelo menos, parar ante o inevitável destino?”, reflexões de uma mulher, mãe, militante, ativista e artista, que ao longo de sete décadas não se curvou à cronologia do tempo.


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